20.11.09


O Homem do Leme


A alma extingue-se nos dias tristes
da cidade…
o olhar apaga-se
nos silêncios
das palavras por dizer…

Como mortos caminhamos
sofremos e lutamos
na demanda do “Graal”
que perseguimos…

Somos guerreiros de um sol
por descobrir…
e continuamos
ignorados nas sombras da vida,
ao leme dos sonhos que inventamos…

[fotos pessoais]

Arminda Branca M. V. Pinto
Porto, 20-11-2009

8.11.09

DR. MAURÍCIO ESTEVES PEREIRA PINTO

“A medicina não é mais uma profissão para dar lucro, é um trabalho em prol dos outros” – Dr. Maurício Pinto.

E assim fez!

Por isso cumpro uma vontade que sempre me perseguiu desde que abri este espaço e se tivesse que o fechar hoje ficaria feliz por ter sido a minha última publicação.
É uma homenagem simples àquele que foi talvez o meu primeiro herói, numa memória que existe desde que me lembro de a ter. Criança ainda ouvia pela cidade e entre familiares e amigos falar com carinho de um médico que se dava aos doentes de uma forma pouco comum, numa época em que o combate às doenças pulmonares era feito sem tréguas e de forma exemplar, tendo o Dr. Maurício Pinto integrado e coordenado alguns desses serviços e sendo reconhecido pelos seus doentes e colegas como alguém com uma capacidade única de diagnóstico e dedicação.
Licenciou-se em 1950, tendo logo no início da sua carreira determinado uma vida de serviço e entrega aos mais desfavorecidos, quer no consultório, quer como voluntário no Sanatório D. Manuel II, durante dois anos, trabalhando em todos os serviços. Especializou-se em Pneumotisiologia, tendo reestruturado e dirigido ao longo da sua vida diversos dispensários, dos mais notáveis do IANT (Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos).

As portas do seu consultório estavam sempre abertas até altas horas da noite, quer para os doentes da freguesia de Campanhã, onde residia, quer para os que vinham de concelhos mais distantes. Raramente cobrava honorários, outras vezes apenas cobrava importâncias simbólicas e frequentemente tirava do seu próprio bolso para ajudar a pagar os medicamentos ou para a compra de alimentos. Ainda criança, ouvi contar que chegava a pagar o bilhete de comboio àqueles que vinham de longe e que tinham grandes carências económicas.

O Dr. Maurício Pinto prestou também apoio médico a diversas associações recreativas e desportivas das freguesias de Campanhã e Bonfim no Porto, tendo sido Presidente de uma delas.
Foi fundador do Partido Socialista de Campanhã e a sua verticalidade e desinteresse por benesses sempre lhe valeram o maior respeito, acima das lutas partidárias.

Por tudo isso, a maior fortuna que deixou aos seus dois filhos, que sobreviveram ao acidente de viação que o vitimou a ele e a um terceiro filho, que tinha na altura sete anos, foi este exemplo e o orgulho de terem um pai que passados 34 anos sobre o seu trágico desaparecimento, é ainda lembrado de forma tão intensa pela população que serviu e que continua em sinal de agradecimento e amizade a fazer uma romagem anual à sua sepultura no dia 24 de Junho, data do seu falecimento.

O Povo da freguesia de Campanhã, no Porto homenageou-o com um busto de bronze da autoria do escultor Teixeira Lopes (sobrinho), colocado na Praça da Corujeira e a Câmara do Porto atribuiu-lhe a título póstumo a medalha de ouro de altruísmo e deu o seu nome a uma das ruas da cidade.

Também em Canelas – Arouca, de onde era natural, foi afixada uma placa na casa onde nasceu, em sua homenagem, assinalando a data de nascimento – 19 de Abril de 1924 e a Câmara de Arouca também deu o seu nome a uma das artérias da vila.

Em tão curto texto muito fica por dizer sobre a estatura humana e profissional do Dr. Maurício Esteves Pereira Pinto, mas esta é uma homenagem na primeira pessoa, pelo que não optei por uma biografia exaustiva de um Homem que tanto se deu aos outros, apenas quis deixar o seu exemplo numa época em que o mundo tanto precisa destas referências.
[Recolha do livro "Médicos Nossos Conhecidos" de Ana Barradas e Manuela Soares e de memórias pessoais. Imagem de Wikipédia]

31.10.09

TERRA MOLHADA...

Foto daqui

Este cheiro
a terra molhada
agarrado ao meu corpo…
Este perfume
das flores do campo
nos meus sentidos…
Esta noite
que canta nas batidas
da chuva
e me envolve no seu mistério…

Como o silêncio
que tem o teu perfume
e o teu rosto repousado
a meu lado
e os teus beijos
que são espuma do mar…
e os teus braços
e os teus abraços…

Este mistério da noite
no mistério de sermos nós!


Gondomar, 11-09-1974

18.10.09

TODAS AS VIAGENS SÃO POSSÍVEIS

(Foto de Frei Mário Rito Dias)


Já não preciso de palavras,
meu amigo,
apenas a ternura a crescer
nas marcas que o tempo traz
ao nosso rosto, não à nossa alma,
apenas o nosso olhar sereno
de quem já viveu batalhas, distâncias, marés,
e dos sonhos e sofrimentos
DEUS sabe quantas vezes estendi até Ele o meu olhar
para percorrer a distância até si,
sempre que não pude estar aí,
onde ouvia o seu silêncio triste e magoado…
Mas, afinal eu estava aí, meu amigo,
porque Deus me fazia sentir a seu lado
quando O escutava em silencio,
e com Ele percorria a sua solidão, a sua dor,
algumas vezes a sua alegria…
(no SEU ESPÌRITO todas as viagens são possíveis!)
Por isso, já não preciso de palavras, meu amigo,
neste silêncio em que me encontro consigo
e escuto a Paz que Deus lhe traz
(Ele sempre nos dá o que merecemos!)
e fico feliz, por O saber sempre a seu lado…


Arminda Branca Mendes Vieira Pinto
Gondomar, 25-01-1991


Dedicado a frei Mário Rito Dias, durante o seu percurso pela Guerra Civil de Angola, em terras de Uíge. Um Hino de Amizade a um padre que foi professor, pai e amigo, eterno, quando as palavras já não são precisas… porque sabemos e sentimos que estamos juntos, porque na Amizade todas as viagens são possíveis…

9.10.09

DO PÓ QUE SOU



A quem me vier procurar
digam que não estou
dentro de mim
- só me possui
quem passou na multidão
a sentir nela
a fome de rasgar a carne
e saciar a solidão
desta gente perdida.

Quem vier encontrar
a minha vida
não bata à minha porta
mas agarre a minha mão
e chore comigo
a dor de quem passa.

Ver-me-á
em cada rosto que vem
rir e chorar
e virá gritar comigo
pelo povo que rasga os passos
nas nossas vidas paradas
virá gritar que cravem
o nosso corpo de espadas

E do meu ventre de mulher
nascerão flores e pão
para toda a gente!

Porto – 03-03-1974
(fotos de frei Mário Rito Dias)

3.10.09

HOMENAGEM



No próximo dia 31.10, pelas 21.30h, no Auditório Municipal de Gaia, a Associação das Colectividades de Gaia vai homenagear Fernando Peixoto, evocando todo o seu percurso de vida. Será um espectáculo com música, teatro e poesia, com textos de sua autoria.
Os amigos que quiserem reservar os seus convites, façam-no por favor consultando os seguintes links:






A UMA MULHER DO MEU PAÍS


Abre as asas, tu que não desistes
de encontrar as asas nos teus braços
e com eles descobrires novos espaços.

Abre as asas, tu que não desistes
de rasgar, no tempo, o calendário
que preenche, em cada dia, o teu diário.

Abre as asas, tu que não desistes
de mostrar que és viva, e continuas
percorrendo, serena, as mesmas ruas.

Abre as asas, tu que não desistes
de mudar a face da cidade
em ímpetos de arrojo e de vontade.

Abre as asas, tu que não desistes
de enfrentar o sol que te encandeia
e quebra a tua última cadeia.

Abre as asas, amor, e segue em frente
voa sempre, voa sempre, sem cansaço,
e ensina a voar toda esta gente
que continua especada olhando o espaço.


FERNANDO PEIXOTO

In Arca de Ternura



Recordando com ternura e muita saudade o amigo e o Mestre, o poeta, o Historiador e Investigador, o escritor, encenador e tantas searas mais de sabedoria que nos deixou…
Guardamos as sementes, tantas, para florescerem em nós na primavera da nossa alma, sempre que no decorrer dos dias, nos tornarmos dignos do que consigo aprendemos.


Para o querido amigo Fernando Peixoto, as flores da nossa amizade eterna…


Branca e Rita Pinto

23.9.09

OUTONO

(Foto de Frei Mário Rito Dias)


Neste Outono o silêncio é feito de brisas
com histórias de mar ao fundo…

Folhas esvoaçam no vento
como beijos de mil cores…

E nos cheiros da natureza
a alma explode nos sabores
de frutos maduros…

Vejo o pão nascer das minhas mãos
na colheita dos sentidos …

E percorro a estrada dos afectos
na vida por descobrir…


Gondomar, 23 Setembro 2009

13.9.09

SIMBIOSE


Estou aqui
neste êxtase
de me sentir multidão,
de ser um povo que amo
e vivo até à medula…

Estou aqui
no teu corpo em festa,
seara imensa
de novas flores de esperança…
- flores que hão-de crescer
do meu corpo lavrado,
pelo teu amor feito arado,

e hão-de ser o pão
que este povo faminto
espera…

Porto, 11-09-1980

4.9.09

RECADO

(Foto de Graça Lopes)

Passam os anos por mim
alegrias, tristezas, cansaços
risos, ternuras, abraços.
Passa a vida, passa o amor,
as saudades, as lágrimas, a dor
e tu estás sempre lá, avó
como se quisesses ainda
esperar-me na esquina
para me dizer “Não corras!”

E eu voltava sempre atrás,
e quando já não me vias, corria,
corria com aquele sorriso imenso,
que me fazia nascer no olhar
duas estrelas de ternura,
e me tornava os passos leves,
como se me emprestasses asas para voar…

E quando chegava ao destino
com a tua auréola de carinho
todos me diziam:
“como os teus olhos brilham
e a tua alma canta
queremos dessas flores
que colheste pelo caminho”,
e eu dava-te,
dava-te de alma cheia,
porque o amor é uma cadeia
que não pára de crescer…

E é por amor que caem lágrimas
e nascem sorrisos de ternura
nestas estrelas que acendeste,
- flores que me ensinaste a plantar –
e me dizem quanto sofreste em silêncio
quanto rezaste e amaste em silêncio
e em silêncio viveste!


TU, que não sabias ler nem escrever,
mas aprendeste no amor tudo da vida
e viveste sempre como Deus quer,
deixando-me este recado à partida:
- Não corras tanto, deixa a vida correr,
e vamos viver agora, este amor, esta amizade,
este pedaço de nós…
sem pressa de chegar
para podermos partir
com os passos ligeiros
e estrelas no olhar…

15-11-1989

19.8.09

A VIDA



Saudades de ti,
do futuro por descobrir,
do mistério por viver…
A vida é sempre
este encontro de nós mesmos
no outro…




(Dedicado ao meu grande amigo Paulo - Intemporal)